Era festa de aniversário da tia Milí. Esses típicos encontros de família que têm um monte de salgadinhos que dão azia. Coxinhas, croquete, pão de queijo com patê e, é claro, a famosa maionese que só a tia Milí sabe fazer.
Amanda e André escolheram o pior momento para contar a verdade sobre o relacionamento amoroso que estavam vivendo secretamente. Assim que o relógio indicou nove horas da noite, todos pegaram seus pratos de lombo assado com maionese e correram para encontrar o melhor lugar na sala de TV. Era sexta feira e todos estavam ansiosos e dispostos a ignorar momentaneamente a cerimônia familiar para assistir o último capítulo da novela da moda.
Eu estava na varanda conversando privadamente com a prima Alice quando os dois se aproximaram, me seguraram pelo braço e disseram:
-Vamos contar!
Apenas sugeri que esperassem até o fim da novela.
Ignoraram meu conselho e foram direto para o recinto onde estavam todos reunidos e com os olhos cravados na tela, sem piscar.
De mãos dadas, os dois se colocaram em frente à TV de 21 polegadas e anunciaram que havia algo muito importante a ser dito. Obviamente não foram muito bem recebidos, sendo enxotados com irritação e gritos de “Sai da frente!”
Energicamente e com grande coragem, tomaram o controle remoto das mãos do tio Pedro, um homem corpulento e narigudo, que era conhecido como aquele que leva os sobrinhos para o puteiro assim que chegam à puberdade. Desligaram a televisão e houve um grande silencio. Antes que o ar fosse preenchido por uma avalanche de vozes reclamonas, André puxou Amanda pela cintura e tascou-lhe um beijo na boca – visivelmente molhado, mas sem língua. Todos ficaram estáticos, em um esperado estado de choque. O autor do beijo pôs a mão no ombro de sua amante disse com cara de quem dá um pulo em direção a uma piscina de água terrivelmente fria:
-Estamos namorando.
Amanda continuou parada. Olhou para a mão que repousava em seu ombro e abriu a boca para dizer algo, mas logo desistiu cerrando os lábios com uma expressão de quem espera o pior.
-Mas vocês são irmãos! – Bradou a tia Salí, que até então permanecera camuflada por trás de uma grande almofada estampada com folhas secas de outono.
-Não somos irmãos! – retrucou Amanda com um grito mais alto do que o necessário, como se ela não pudesse controlar a intensidade ou velocidade das palavras.
O pai de André, que também é meu pai apenas exibia olhos arregalados.
André, que estava aparentemente calmo, explicou com a oratória de presidente de junta universitária:
- Sim, crescemos juntos na mesma casa. Sim, nossos laços familiares se fundem em um só. Sim, nossos pais são casados um com o outro. Mas não somos adolescentes brincando de troca-troca com primos. Estamos realmente apaixonados e vamos nos casar assim que eu me formar no curso de direito e conseguir um bom emprego.
-Ai meu Deus, ela está grávida! – vociferou novamente a tia Salí que não conseguia conter a quantidade de drama que atribuía à situação.
Foi então que papai se levantou com um salto da poltrona de couro marrom disse olhando para Amanda:
-Vou telefonar agora mesmo para a sua mãe.
A mãe de Amanda, que é também a minha mãe, não pode comparecer à festa de aniversario, pois estava de plantão no hospital – é enfermeira.
Acalmem-se leitores, prometo esclarecer as duvidas que provavelmente surgem em suas cabeças antes do final desse capítulo. Sem fazer mais suspense.
Vários anos atrás, meu pai, Aurélio, era casado com uma mulher chamada Irene. Durante essa breve união eles tiveram dois filhos: André e Álvaro. Mais ou menos durante esse mesmo tempo, minha mãe, Janira, foi casada com um distinto senhor chamado Paulo, e eles tiveram uma filha chamada Amanda. Nenhum desses dois casamentos mencionados deu certo. Aurélio conheceu Janira quando foi ao pronto socorro tratar uma infecção causada por uma ferpa de madeira que entrara em seu dedo enquanto tentava pescar com uma vara feita de bambu velho.
Aurélio e Janira se apaixonaram, se divorciaram dos então respectivos cônjuges e se casaram em uma cerimônia simples, onde minha mãe usava um vestido azul claro, sutilmente grande demais para seu corpo que já carregava um bebê: eu.
4 comentários:
Gaaaaaaaaaata to pasma!!! Vc tá escrevendo bem demais! (Não querendo puxar saco.. vc sempre escreveu mto bem, mas agora vc tá escrevendo muuuuuuuuuuuuuuuito bem).
Parabééénnss viu, adorei os textos!!
Saudades gigantes e muitos abraços de perna p/vc! hehe
rene...mas e os apaixonados?
e a amanda e o doidinho que eu esqueci o nome??? fodam-se os casamentos e os parentescos,eu quero é barraco!!!
huahuahuahua
gostei do dicursode presidente de junta universitária do andré!!
eu vi a cena na minha cabeça...
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