sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Ensaio de Prazer

Aos quinze, Sofia se desapontou com o orgasmo. “É isso?”, pensou. E continuou se masturbando, esperando que algo melhor chegasse. Não chegou. A partir de então, a vida para ela perdeu o erotismo por algumas semanas.

Quando criança ela achava que a mulher poderia sentir prazer apenas ao tocar um homem. Achava que o sexo era aquilo que via nas novelas: duas pessoas nuas esfregando os rostos e rolando entre lençóis, de lá pra cá, a noite inteira. Foi uma grande decepção quando chegou à conclusão que o verdadeiro gozo estava principalmente em ser tocada. E o susto atingiu-a ao saber que o ato sexual e erótico envolvia uma série de penetrações. Da língua dentro da boca. Do pênis dentro da vagina. Imaginou a dor, o asco, pensou que os gemidos dublados das atrizes americanas em filmes tarde da noite eram sofrimento.

O sexo como instinto de reprodução. Se não fosse tão delicioso, nenhuma mulher ficaria grávida. Deformar o corpo, pés inchados, hemorroidas, acne, alterações de humor, dores nas costas, estrias, e a chave de ouro: o parto. As entranhas se abrindo em sangue, empurrar um frango assado pelo nariz. A pele da vagina rasgando até o ânus para que cabeça e ombros existam na realidade incerta da civilização. Mesmo assim algumas pessoas enxergam beleza na maternidade (e/ou paternidade), indiferentemente do potencial prazer que leva à existência de um feto. Enquanto outros dispensam completamente as possíveis consequências da cópula, pensando apenas na procura pelo extremo do deleite carnal.

“O prazer é egoísta”, concluiu a menina. Solitário e pleno. No fim das contas, para gozar é preciso contar com a sorte e a boa vontade de um parceiro que seja atraente aos olhos e habilidoso nas mãos e outras extremidades. Buscou preliminares em diálogos ousados e movimentos ensaiados ao lado de amantes fantasiosos. Típica adolescente que cobiça o professor de matemática, religião, inglês. Aquele homem que, provavelmente decidiu ensinar, pois secretamente achava que poderia ser cobiçado por alguma aluna que se acendesse pelo intelecto, a baixa estatura e o discurso convincente salpicado de piadinhas bobas.

Todos os dias ela levava um bombom de chocolate para o mestre. Ele agradecia sorrindo e pedia que se sentasse para iniciar as tarefas. Ela sonhava acordada que ele pedia que ela sentasse em seu colo e abrisse bem as pernas para ensinar-lhe coisas que ela não tinha a menor noção do que eram, mas que a deixavam meio sem ar. Mais tarde descobriu que o ícone que posava em frente ao quadro negro/verde era casado, e diabético.

O desejo é imaginação, criatividade. O tesão, assim como todos os outros sentimentos, só existe dentro de um determinado alguém e não pode ser externado ou transferido com total eficácia. Obviamente há quem seja bastante eloquente e descritivo, mas isso serve apenas pra provocar um segundo anseio que nasce e se desenvolve com propriedade em um corpo independente. Um mais um sempre será igual a dois. Foi o professor quem disse.

2 comentários:

Eduardo Martins disse...

Muito bom, Renata. Gostei bastante.

caiocito disse...

jude, ce ta bem? kkk
vc tá na fase hedonica da vida. São três fases. De 15 a 19 anos, a fase que queremos ser intelectuais. De 19 aos 25 viramos estetas, só a beleza interessa. Dos 25 até a morte viramos hedonicos e só queremos o prazer :)