domingo, 3 de julho de 2011

Sobre Bullying e Monstros


Após ficar 20 anos em coma, Joaquim acordou somente para perceber que todos os bares agora tinham mesas e cadeiras de plástico. O que aconteceu com toda aquela encantadora e dobrável mobília de metal? Não havia nada a fazer senão lamentar-se. E como se não bastasse, já não existia mais Fanta sabor abacaxi. Porém, a lembrança desse sabor pode ter sido apenas uma alucinação que Joaquim teve durante tantos anos dormindo.

Joaquim alimentara inúmeras teorias evolucionistas e grandes idéias para escrever romances, porém esqueceu-se de tudo no dia em que, ao atravessar a rua fora da faixa de pedestres, foi atingido pelo carrinho de um coletor de papel. Essas coisas não tem freio.

Mas não foi assim que ele entrou em coma. Essa condição foi conseqüência de um ataque nervoso que Joaquim teve ao chegar em casa e ver inúmeros monstros e fantasmas perseguindo seu filho Fernandinho, de sete anos. Os seres imaginários usaram algemas de sex shop para amarrar a criança na cadeira enquanto o torturavam e estupravam. No final, deram um tiro de revolver 38 na cabeça do menino e entraram todos pelo buraco feito pela bala. A perícia revelou que os monstros apareceram porque Fernando era vítima de bullying na escola, onde havia um parquinho com o chão coberto de brita sobre o qual as crianças corriam.

Quando Fernandinho, ainda vivo, acordava durante a madrugada e ia chorar no ouvido do pai por medo de monstros e fantasmas, Joaquim dizia que esses seres viviam somente dentro da cabecinha do menino. Um dia, quando Fernandinho, por distração, foi à aula vestido com a bermuda do uniforme ao contrário, os coleguinhas decidiram que seria justo puni-lo com uma chuva de brita. Uma das pedrinhas atingiu-o na cabeça e, como os monstros viviam apenas dentro da cabeça dele, as criaturas fugiram através do orifício provocado pelo impacto da pedra em seu crânio. Joaquim presenciou todo o terror e as atrocidades cometidas contra seu filho e, não resistindo ao trauma, entrou em coma e assim ficou durante 20 anos.

Quando saiu do hospital, a primeira pessoa que Joaquim procurou foi a mulher, mas decepcionou-se ao descobrir que aquela que ele pensava ser sua esposa, era na verdade uma mariposa. Tão grande que parecia mais um morcego. Dizem que esses animais tem um pó tóxico nas asas. A constante forma como Joaquim fora exposto a tal pó, fez com que ele tivesse muita sede por cerveja barata e desenvolvesse um desvio de septo nasal.

Joaquim estava deprimido, infeliz, solitário. Procurou então uma prostituta cartomante para lhe fazer companhia. Ela tinha pernas enormes. Metros e metros de pernas que faziam o tronco parecer achatado naquele curto vestido vermelho de lurex. Ela tinha cabelo loiro com mechas lilás, gostava de longas caminhadas na praia e seu hobby era cursar uma faculdade particular de comunicação social.

As pessoas acham, erroneamente, que algumas universitárias se prostituem com o intuito de levantar fundos para arcar com os investimentos educacionais. Vendem seu corpinho em busca de tornar possível o sonho intelectual de um dia serem proletariadas cujos mamilos apontam sob terninhos por causa do ar condicionado de algum escritório. Mas o certo é que, ao contrario do que pensam, as garotas de programa tornam-se estudantes para agregar valor aos serviços sexuais. Depois que Sissy passou a se apresentar como “Loira quente universitária”, pôde arrecadar o dobro do que embolsava quando era apenas “Loira quente”. Isso é uma questão óbvia de marketing pessoal.

Durante o programa com Joaquim, ela passou todo o tempo das preliminares dando opiniões sobre filmes do Woody Allen. Depois do coito, ela fumou um cigarro daqueles compridos fininhos com aroma de hortelã e comentou sobre o fato do diretor ter largado a esposa Mia Farrow para se casar com sua filha adotiva sul coreana. Joaquim nunca tinha ouvido falar dessa fofoca e ficou 39% chocado.

Sissy gostou muito do novo cliente e por isso, antes de se vestir e ir embora, ela pegou um baralho de tarô e fez alguns truques sacados de mágica que não estavam incluídos no preço do sexo. Os dois então passaram a se encontrar regularmente. Joaquim adorava observar a forma como Sissy, enquanto pensava em algum enredo de filme, levava a mão à boca, roendo delicadamente pequenas lascas de esmalte vermelho. Ela cuspia os pedacinhos com muita classe, colocando a linguinha para fora. Não há nada mais femininamente sexy e selvagem quanto uma mulher com esmalte descascado e aquela cara de falso tesão.

No próximo encontro, Joaquim contou a Sissy tudo o que acontecera com seu filho anos atrás. Ela lembrou então de sua não tão distante infância, durante a qual tinha recorrentes pesadelos. Ela sonhava com uma jovem muito branca, de cabelos pretos curtos e encaracolados, que usava maquiagem combinando com o brinco comprado em uma feira hippie. Essa assustadora figura jogava a cabeça para trás dando risadas malvadas enquanto enfiava um garfo em uma lata de ervilhas, comendo-as, uma a uma, como se fossem pequeninos brigadeiros verdes.

Os amantes então dividiram segredos, esfregaram os narizes e chamaram um ao outro de “meu amorzinho” com voz de bebê. Esse tipo de coisa que, se o mundo fosse justo, daria cadeia. Eles então cismaram que estavam apaixonados, e como todo mundo que tem essa ideia, Joaquim e Sissy escreveram os planos para o futuro em um guardanapo de bar e jogaram poker valendo favores não-sexuais. Joaquim perdeu e teve que ir ao churrasco de calourada da facu com a garota.

Lá, ele achou muito perigoso conhecer pessoas, porque existia a possibilidade de ele acabar fazendo amigos. Joaquim tinha uma política muito estrita contra amizades, pois acreditava que caso ele se aproximasse de alguém e viesse a desejar o bem a essa pessoa, ele não mais poderia criticá-la tanto quanto gostaria. Costumava dizer que amizade é igual cachorro: ele não gosta, mas respeita quem tem.

O relacionamento começou a desandar no dia em que Sissy estava chorando inconsolavelmente pela morte de seu terapeuta, que tinha 102 anos, era surdo, mudo e milionário. Ao ver o desespero da menina, Joaquim disse, enquanto comia com a mão uma coxa de frango fria de ontem, que com todo o dinheiro gasto em terapia ao longo de anos, ela poderia ter comprado seis novas personalidades saudáveis. Ela achou um absurdo ele dizer isso, e ainda mais, ficou com raiva porque ela estava planejando fazer risoto funghi para o almoço e ele já tinha estragado o apetite com aquele frango velho.

Sendo assim, os dois pombinhos terminaram o romance e ela foi imediatamente para o Caribe passar as férias e esquecer toda a falta de sensibilidade de Joaquim. Lá ela conheceu um brasileiro que disse que morava em um lugar chamado Tirol, na cidade de Belo Horizonte. Ela não sabia onde ficava, mas tinha quase certeza que era um lugar bacana, afinal de contas, o cara estava curtindo uma viagem internacional. No final das contas, o cara era um trabalhador muito honesto que havia pagado pela viagem com o suor de seu salário de caixa de padaria. A partir desse ponto, a vida de Sissy ficou entediante demais para continuar a ser parte importante dessa história.

Ela e Joaquim voltaram a se ver muitos anos depois, quando ele, já velho gagá, participou da despedida de solteiro de um sobrinho em um puteiro de gordas sessentonas. Quando ele viu a mulher com quem tinha vivido momentos maravilhosos de outrora, quase se apaixonou de novo, mesmo ela pesando 178 quilos. Ela ainda tinha cabelos loiros com mechas roxas e fazia uma sensual apresentação na qual ela performava um strip tease enquanto comia 40 hambúrgueres ao som de clássicos dos anos 1990.

5 comentários:

Caiocito disse...

Lindo e bizarra a historia. Estilo fluente sem deixar de ser descritivo e literário.

Vc está cada vez melhor.

=)

Laura Rennó disse...

Estou adorando até agora o 39% chocado.

Fernanda Azevedo disse...

Acho que você é doida.
Legal!

Ricardo Siqueira disse...

Universitaria, cartomante, magica crítica de cinema e prostituta com um bom coração. Sissy merecia um conto desses "onde tudo começou" que andam na moda.

Mat - DeveSer disse...

puts... vc escreve tudo isso? q animo e q imaginação!