
Ver Capítulo 1: A Rotina Intrusa
Ver Capítulo 3: A busca pelo desejo final
Lila foi imediatamente para casa, onde encontrou seu namorado, com quem vivia. Fred era jornalista, aficionado por café e gostava de dizer-se escritor. Lila o incentivava a escrever, mas ele costumava inventar desculpas para não fazê-lo, como o fato de que estava frio demais ou calor demais. Fred acabara de chegar de sua jornada de trabalho na redação de um jornal local.
Lila o encontrou sentado no sofá com os olhos vidrados na televisão, e as mãos furiosamente entrelaçadas a uma xícara de café. No noticiário, mais repórteres confirmavam o fato de que algo terrível estava para acontecer. Muitos até mesmo formulavam hipóteses de como possivelmente aconteceria. Alguns afirmavam que uma catastrófica enchente varreria a humanidade. Outros diziam que gigantescas chamas lamberiam a vida de cada ser humano, animal ou planta. Havia até quem fosse mais ousado e supusesse que alienígenas viriam para dizimar a população terrestre.
- Oi amor. – disse Lila.
Fred ficou calado, ainda com os olhos pregados na tela da TV, mas aparentemente com o pensamento bem mais longe do que isso.
- Amor, você não adivinha o que aconteceu comigo hoje. Eu fui...
Fred interrompeu a garota e balbuciou:
- Temos que fugir.
-Quê? – perguntou Lila.
- Vamos fugir. – Ele levantou do sofá de forma estabanada e rapidamente colocou a caneca em cima da mesa de centro. – levaremos somente o essencial. Alguns enlatados, duas peças de roupa, sapatos resistentes. Você sabe onde eu guardei aquela barraca de camping?
Lila teve certeza de que seu namorado estava maluco. Perguntou:
- Como você sabe que o mundo vai realmente acabar?
- Eu apenas sei. Nunca soube algo tão bem em toda minha vida. Nem mesmo quando tive que aprender a tabuada sob ameaça de que a professora usasse a palmatória.
O desespero do rapaz começou deixar Lila inquieta. Ela sentiu uma brisa e esfregou os braços com as mãos. Percebeu então que não estava usando a jaqueta preta com a qual tinha certeza ter entrado pela porta minutos atrás.
- Você viu eu tirar minha jaqueta? Perguntou a Fred.
- Isso! Não podemos esquecer roupas de frio. Não sabemos onde vamos ter que dormir, nem por quanto tempo.
Lila procurou a maldita jaqueta dentro na bolsa, em cima da mesa, no banheiro, e até mesmo retornou ao carro em busca de alguma pista. Nada. Não estava em lugar nenhum e nem parecia ter um dia estado. A cabeça de Lila começou a doer excessivamente de tanto ela tentar recordar cada passo que dera durante o dia, para lembrar-se de onde havia deixado sua peça de roupa favorita. Mas tudo em sua memória indicava que ela havia entrado em casa com ela, que desapareceu de seu corpo misteriosamente.
O namorado de Lila começou a ficar irritado com o fato de que ela não parecia estar se importando muito com a chegada do apocalipse. Ele começou a franzir a testa e ficar vermelho, gritando:
- Eles estão chegando! Não fique aí parada, eles estão chegando!
Lila não sabia exatamente quem estava chegando e nem de onde. Só esperava que não fossem seus sogros, pois não queria que a mãe de Fred olhasse para ele com aquela cara de pena, ao ver a pilha de louças por lavar na pia da cozinha e a cama desarrumada.
Fred estava totalmente desnorteado e, desorganizado, enfiava alguns objetos inusitados dentro de uma mochila azul. Lila viu que ele arrancou a maçaneta da porta do banheiro e a jogou dentro da mochila, junto com duas cuecas, um narguilê, um cachecol xadrez e cinco pacotes de miojo. Explicou que a maçaneta serviria para abrir a porta que os levaria a outra dimensão, e que o narguilê era somente para fins recreativos.
Lila resolveu que o melhor a fazer naquele momento era tirar os sapatos, pois, além de seus pés estarem muito suados lá dentro, estavam também apertados. Enquanto ela soltava aquele gemido de alívio ao dar liberdade aos dedinhos, Fred terminava de fechar o zíper da bagagem para uma excursão sem volta. O rapaz girou em seu próprio eixo ao vestir o braço em uma das alças da mochila. Aquele movimento foi fatal. Como se conectado a um espremedor elétrico de laranjas, continuou girando cada vez mais rápido e efetivamente, até que desapareceu.
To be continued...
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4 comentários:
to ıntrıgada. posta logo o reeeeeeeesto
Falas do cottidiano com elegância e paixão, pulei dentro da tua história e abracei a menina triste
Insano pero muy bueno! Continue.
Ri muito com isso: ' Lila viu que ele arrancou a maçaneta da porta do banheiro e a jogou dentro da mochila..' que situação mais absurda... ^^
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