O moço de nome Mocó, com a cara fechada, carregava meio porco (abatido, obviamente) nas costas. O suíno havia sido cortado horizontalmente com tanta precisão, que cada banda exibia exatamente metade do rabinho, já não mais encaracolado. Um carimbo azul marcava a pele pálida do animal, indicando o nome da instituição responsável pela morte do simpático nariz-de-tomada.
O Mocó caminhou, curvado sob o peso da carcaça até um enorme gancho pendurado em uma barra de ferro que atravessava o cômodo gelado. Prendeu o bicho no gancho pelo tendão da coxa e soltou, fazendo-o deslizar sobre as costas cansadas. Era uma fila inacabável de metades horizontais de porcos cujas patinhas um dia sambaram na lama e logo iriam ferver em uma panela de feijão.
Mas antes de chegar ao feijão há que se deixar de ter forma de quem um dia respirou para virar o que as crianças saboreiam com o nome de carninha. Outros Mocós, com enormes facões separam pele para toucinho, orelha para salgar, lombinho para defumar, e em alguns minutos ninguém mais sabe se aquilo um dia foi porco ou gente.
Em uma comprida esteira rolante da altura de um umbigo humano passam os bifes que caem dentro de um container, daí para serem propriamente embalados, resfriados, congelados, enviados. O chefão dos Mocós, passa de jaleco branco, capacete e botina de plástico, fiscalizando cada corte para ter certeza que todos formam uma perfeita borboleta. Não pode ter osso no lombo, nem lombo no osso, pois o chefe não procura trabalho bem feito, mas fareja desleixes de todos os tamanhos, para condenar invocando poderes frigoríficos.
Como o homem come pouco, come o porco, como porcos, quando alguém raramente não olha, o Mocó enche as calças de borboletas e assim colore o prato dos filhos no jantar. Até que certo dia morre o Mocó, vítima de algum outro espírito suíno munido de grande arma branca, metal afiado com cabo encardido, acostumado com todo aquele vermelho. Quem quer ver o lado de dentro da vida se depara apenas com a morte.
No velório, colegas de trabalho, curiosos e fingintes se impressionaram com o corpo estático: era peça inteira, sem carimbo nem corte horizontal. Um animal que depois de morto, carregaria ainda esse título indeterminadamente, em vez de passar a ser recheio de prato.
6 comentários:
"Gosto de porcos. Os cães olham-nos de baixo, os gatos de cima. Os porcos olham-nos de igual para igual." Churchill
Cara que porco lindo na ilustração desse post! Eu olho pra ele e me pergunto porque diabos as pessoas continuam preferindo cães. Nunca entendi essa necessidade de separação comida/pet.
By the way, gostei do relato com quê de "Construção" e da musicalidade de "Como o homem come pouco, come o porco, como porcos"
Olá Renata, fico realmente espantado com tantos dogs..hehe ^^ eu atualmente tenho só uma poodle preta nº1 e hoje em dia tbm sou fascinado pela filosofia Canis, obrigado pelo seu comentário e as outras partes do texto serão escritas depois... =D
E a respeito de seu texto, não é a toa que a carne de porco me deixa mal... =D
Abraço!
Amarelo Manga, Carne Fraca. Hoje li pouco, tá tarde. Gostei. E agradeço a visita. Prometo voltar com mais calma. Sou quase vegetariano.
gosteı do post. ajudou a matar um pouco da vontade de comer porco heheh
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