segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Capítulo 1: A Rotina Intrusa


A sucessão de fatos teve início no dia em que todos os jornalistas acordaram com uma incontrolável vontade de noticiar o fim do mundo. Lila caminhava até seu carro depois de um dia de trabalho quando percebeu algo estranho. Ela costumava estacionar o veículo diariamente em um local determinado, uma vaga estreita localizada entre a garagem de uma fábrica de salgadinhos de festa e a garagem de uma casa onde viviam duas senhoras idosas que, cedo na manhã sentavam-se em um banco na varanda para ver o movimento de pessoas e carros passando pela rua. Às vezes Lila pensava que as velhinhas, com suas xícaras de café em mãos, zombavam dos transeuntes apressados e preocupados em chegar pontualmente a algum lugar onde eles não queriam estar.

Lila fazia questão de sair de casa mais cedo do que deveria simplesmente para ter certeza de que outro carro não seria estacionado na vaga que tanto gostava. O local não era perfeito, pois deixava o retrovisor exposto sob um pé de amora, e em temporada, as frutas caiam maduras, explodindo roxidão sobre o vidro. Mas Lila não se importava tanto com aquilo. Poderia ser pior: imagina se fosse uma mangueira, ou um pé de jaca?

Bom, naquele dia, Lila, ao retornar, não encontrou o carro no local esperado. Imediatamente pensou que ele havia sido roubado, e quando estava prestes a se desesperar pensando em toda a burocracia que teria que ser realizada perante a polícia e a companhia de seguros, viu que o automóvel estava simplesmente estacionado do outro lado da rua. Correu para verificar se estava tudo em ordem e olhou em volta para ver se encontrava algum amigo escondido atrás da árvore, assegurando que era tudo uma brincadeira de mau gosto. Quando não viu ninguém, ficou confusa e, em voz alta, soltou a frase: “que merda é essa?”.

Entrou no carro e percebeu que nada parecia ter sido movido. O assento do motorista estava exatamente na mesma posição que ela deixara pela manhã. Nem mesmo o sanduíche de queijo e presunto que ela havia esquecido sobre o banco do passageiro tinha se mexido. Estava quietinho lá, embrulhado em seu plástico filme. E parecia apetitoso, mesmo tendo passado o dia todo ali, provavelmente sob o sol, na ausência do pé de amora. Ah, se aquele sanduíche falasse e tivesse consciência. Naturalmente ele seria fiel a Lila, e a diria quem foi o maluco que moveu o carro, e como ele conseguiu fazer aquilo sem deixar pistas.

Naturalmente, ela tentou esquecer aquele acontecimento e ligou o motor, engatou a marcha, pisou no acelerador e seguiu para casa. Ligou o rádio para descontrair. Um boletim de noticias urgente afirmava que o fim do mundo estava próximo. Ninguém sabia como ou quando seria, nem o por quê do apocalipse, a única coisa de que os locutores tinham certeza é que o mundo iria acabar, e logo.

Ver Capítulo 2: O Giro Mortal
Ver Capítulo 3: A busca pelo desejo final

3 comentários:

eusoulinda disse...

Ta inspirada ou isso seria alguem que conheço?

eusoulinda disse...

Voce realmente esta inspirada ou seria alguem que conheço? Essa Lila parece familiar,.,

renata.ferri disse...

Não sei de quem está falando, mas mantenha essa pessoa longe de mim. Não quero ser acusada de plágio.
;)