quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Salkantay: o inferno onde as pedras têm rostos


Na montanha, a solidão engana. A trilha molhada se desenrola diante dos olhos privilegiados em detrimento de pés cansados que já desistiram de contestar e adormeceram cedo, deixando todo o trabalho para a pele, carne, unhas inertes. Seria muito fácil que tudo rolasse abaixo como um surf radical, mortal, no meio do temporal. Mas a conquista desta terra através de pegadas bambas e mãos dispostas insiste em acontecer.

Aquela gente humana contemporânea, em busca da beleza sincera e normal já não há, estão a frente, com suas forças, seu preparo. Mas mesmo estando sola, há quem me olhe, as pedras, cada uma com seu rosto. Como diversão busco alguma rocha vazia, sem sentimentos ou expressão, e nessa fantasia tão lógica foi impossível encontrar o ordinário, o trevo de três folhas.

O incrível é que elas não falavam, apenas lá estavam: caídas, deitadas, em uma posição delicadamente calculada por alguma energia cósmica ou divina. Esgueiravam seus olhares rígidos e frios, mojados, deslizados. Me convidando a pensar em um por quê. Um convite obrigatório: quem são vocês? Ou quem foram? Não pode ser apenas loucura ou exaustão, pois na montanha a natureza não deve ou pode ser feita apenas de folhas verdes ou imensas quedas d’água. Tem que haver algum tipo de magia que te faz querer estar ali no meio de tanto perigo de morte e lama.

Penso se talvez aqueles rostos representavam espíritos querendo existir eternamente naquele lugar, um ponto mínimo totalmente significante para o planeta, galáxia, imensidão, algo que eu não poderia compreender usando apenas un poquito más do meu cérebro.

Todas as vezes que caí durante o percurso até o pé da montanha, aquelas misteriosas pedras, talvez amigas, definitivamente incapazes de ofender alguém que já não estivesse ofendido, não me seguraram ou amorteceram minha queda. Dirigiam-se comigo à beira dos precipícios e era bom porque não se importavam, nem se preocupavam com o que a minha mãe poderia dizer se me visse ali. Apesar de algumas das pedras terem o semblante um pouco mais intenso ou perplexo do que outras, todas eram tranquilas e aceitavam bem a condição em que viviam incapazes de calcular qualquer distancia da destruição.

Joelhos ralados, respiração ofegante, roupas suadas, brindadas com lama, as picadas de inseto e a sabedoria de que a capacidade humana pode ser expandida foi descoberta naquela situação como um experimento de laboratório. As pedras que me cativaram são como a energia necessária para desprender as infinitas reações que começaram com o primeiro passo e terminaram quilômetros depois, da cidade de Machu Picchu, que está mais viva do que muitas construções e pessoas que conheço.

E agora, não adianta procurar em pilhas de brita na beira da calçada, ou no cascalho espalhado pela estrada. Nada ou ninguém jamais me olhará como as pedras de Salkantay.

1 comentários:

Marcos Alexandre Silveira disse...

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