
Ver Capítulo 1: A Rotina Intrusa
Ver Capítulo 2: O Giro Mortal
Ver capítulo 3: O Desejo Final
Como uma dessas percursionistas de teatro moderno, Lila, em ritmo caótico, bateu as mãos sobre o próprio corpo, na altura do quadril, onde ficavam os bolsos da calça jeans e concluiu que, além do dinheiro, havia esquecido em casa também o celular. É incrível como na sociedade moderna, estar sem esse aparelho representa uma ruína psicológica equivalente à queda de uma bastilha interior. Mas tudo acontece de forma bem lógica. Ela lembrou-se então de quando trabalhava em um cargo público e acabou ficando presa dentro do banheiro depois das seis da tarde de uma sexta-feira. Estava sem o celular para chamar ajuda e ficou o fim de semana inteiro dentro daquele ambiente claustrofóbico com cheiro artificial de jasmim. Imagine se fosse véspera de feriado? Ou então Fred podia tentar telefonar da outra dimensão para dizer que estava tudo bem e ainda a amava e convidá-la para fazer um piquenique com pequenas e bonitinhas garrafas de vinho e biscoitos franceses de chocolate, pois isso é o mínimo que se pode fazer em face de qualquer tipo de fim de tempos quaisquer.
Lila então recorreu à única solução possível naquele momento. Pegou todas as balas que julgou necessárias para satisfazer seu desejo e caminhou lentamente em direção ao garoto que via TV. Entregou-lhe as balas e observou enquanto ele as embalava em uma sacola de papel. Percebeu que, assim como ela esperava que acontecesse, o adolescente migrava rapidamente os olhos desde o pacote em suas mãos até os seios de Lila, depois levava os olhos de volta ao pacote e repetia a operação. Quando ele colocou as preciosas balas nas mãos da alegada compradora, Lila rapidamente levantou a blusa, mostrou os seios que não eram nem um pouco parecidos com os da mulher no documentário da televisão, e saiu correndo. O garoto ficou imóvel e sem palavras, provavelmente decepcionado com a realidade.
Assim que saiu da loja, correu tão rápido quanto conseguia. Ela não corria assim tão desesperadamente desde quando era criança e tinha medo da descarga. Toda vez que ia ao banheiro, apertava o botão que ficava acima da privada e saía correndo loucamente em direção a um local seguro. Chegou a uma praça onde havia um gramado muito verde e convidativo. Sentou-se, abriu o pacote de balas e admirou as diferentes cores e formatos que enchiam sua boa de saliva e seus olhos de alegria.
Enquanto estava hipnotizada pelos sabores que estava prestes a deliciar, sentiu um cutucão no ombro direito. Virou-se rapidamente e não viu ninguém. “haha, muito engraçado”, pensou, e virou-se para o outro lado, esperando ver que alguém fizera aquela brincadeira manjada de cutucar a pessoa e correr para o lado oposto do cutucão. Mas não tinha ninguém. Olhou em volta e nada. Não havia nenhum ser humano ao alcance de sua visão. Percebeu também que não ouvia o canto de pássaros, nem o cri cri de grilos, ou aquele gritinho irritante das cigarras. Será que ela era a única pessoa viva restante no universo? Seria isso um grande problema? Afinal, nascemos e morremos sozinhos nesse mundo e não sabemos se os outros seres humanos, lugares e situações realmente existem ou são uma mera criação da nossa imaginação infinita.
Apesar do insight filosófico, tudo estava bem, pois Lila ainda tinha as balas de goma. Esqueceu o resto do mundo e voltou-se, voraz, para aquelas delícias. Não se surpreendeu muito quando viu que só havia balas verdes. Ela tinha certeza absoluta de que tinha escolhido toda sorte de cores. Mas agora só restavam as verdes, que eram as menos gostosas por sinal. Desanimada, ela colocou na boca quantas balas verdes conseguiu. Uma baba viscosa escorreu pelo canto da boca. Deixou as que sobraram sobre a grama, onde não havia sequer formigas para desfrutar o desperdício, e saiu caminhando no meio da rua, acompanhando com os pés a linha amarela pintada no asfalto e dando as costas para um lindo pôr do sol.
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