quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Salkantay: o inferno onde as pedras têm rostos


Na montanha, a solidão engana. A trilha molhada se desenrola diante dos olhos privilegiados em detrimento de pés cansados que já desistiram de contestar e adormeceram cedo, deixando todo o trabalho para a pele, carne, unhas inertes. Seria muito fácil que tudo rolasse abaixo como um surf radical, mortal, no meio do temporal. Mas a conquista desta terra através de pegadas bambas e mãos dispostas insiste em acontecer.

Aquela gente humana contemporânea, em busca da beleza sincera e normal já não há, estão a frente, com suas forças, seu preparo. Mas mesmo estando sola, há quem me olhe, as pedras, cada uma com seu rosto. Como diversão busco alguma rocha vazia, sem sentimentos ou expressão, e nessa fantasia tão lógica foi impossível encontrar o ordinário, o trevo de três folhas.

O incrível é que elas não falavam, apenas lá estavam: caídas, deitadas, em uma posição delicadamente calculada por alguma energia cósmica ou divina. Esgueiravam seus olhares rígidos e frios, mojados, deslizados. Me convidando a pensar em um por quê. Um convite obrigatório: quem são vocês? Ou quem foram? Não pode ser apenas loucura ou exaustão, pois na montanha a natureza não deve ou pode ser feita apenas de folhas verdes ou imensas quedas d’água. Tem que haver algum tipo de magia que te faz querer estar ali no meio de tanto perigo de morte e lama.

Penso se talvez aqueles rostos representavam espíritos querendo existir eternamente naquele lugar, um ponto mínimo totalmente significante para o planeta, galáxia, imensidão, algo que eu não poderia compreender usando apenas un poquito más do meu cérebro.

Todas as vezes que caí durante o percurso até o pé da montanha, aquelas misteriosas pedras, talvez amigas, definitivamente incapazes de ofender alguém que já não estivesse ofendido, não me seguraram ou amorteceram minha queda. Dirigiam-se comigo à beira dos precipícios e era bom porque não se importavam, nem se preocupavam com o que a minha mãe poderia dizer se me visse ali. Apesar de algumas das pedras terem o semblante um pouco mais intenso ou perplexo do que outras, todas eram tranquilas e aceitavam bem a condição em que viviam incapazes de calcular qualquer distancia da destruição.

Joelhos ralados, respiração ofegante, roupas suadas, brindadas com lama, as picadas de inseto e a sabedoria de que a capacidade humana pode ser expandida foi descoberta naquela situação como um experimento de laboratório. As pedras que me cativaram são como a energia necessária para desprender as infinitas reações que começaram com o primeiro passo e terminaram quilômetros depois, da cidade de Machu Picchu, que está mais viva do que muitas construções e pessoas que conheço.

E agora, não adianta procurar em pilhas de brita na beira da calçada, ou no cascalho espalhado pela estrada. Nada ou ninguém jamais me olhará como as pedras de Salkantay.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Capítulo 3: A busca pelo desejo final


Ver Capítulo 1: A Rotina Intrusa
Ver Capítulo 2: O Giro Mortal

Lila piscou os olhos inúmeras vezes e balançou a cabeça de um lado para outro, tentando compreender o que havia acontecido. Fred não estava em lugar algum do apartamento. Ela presumiu que ele ficou bravo com ela e resolveu ir para a outra dimensão sozinho, esperando lá encontrar uma nova namorada que gostasse de Simpsons. As maiores discussões que o casal tinha eram porque Lila detestava o desenho de personagens com pele amarela e cabelo de estrela-do-mar.

Para esfriar a cabeça, a garota caminhou até a cozinha e abriu a geladeira. Lá dentro encontrou toda a decoração de natal que, ao fim do ano anterior, ela tinha guardado em uma caixa de papelão e colocado no fundo do mais alto armário. Aqueles objetos cintilantes, majoritariamente vermelhos e verdes estavam ali geladinhos como nunca antes puderam ficar neste nosso hemisfério sul. Lila franziu a testa, fez cara de deboche e pegou um pote de sorvete que estava no congelador. Empunhou uma colher e quando pensou que estava prestes a se deliciar com a guloseima, viu que o conteúdo do pote era, em vez de sorvete, feijão congelado. Aí já era demais. O que aquele feijão estava fazendo ali? Ela nem mesmo tinha uma panela de pressão!

Todos aqueles acontecimentos bizarros e repentinos a fizeram crer que em minutos, seu apartamento seria invadido por besouros ninjas afegãos, que colocariam um paninho molhado em clorofórmio sobre a boca e nariz dela e a levariam embora desacordada. Na manhã seguinte, com dor de cabeça, ela provavelmente acordaria trancada dentro de uma casa de reality show.

Esperou cerca de 40 minutos e como nada disso aconteceu, e ela não sabia a quem reclamar sobre a demora, resolveu ir até um apartamento vizinho para buscar respostas. Como a maioria dos vizinhos mundo afora, Seu Firmino e Dona Márcia eram desagradáveis e donos de um poodle cujo cheiro exercia extrema supremacia no lar do velho casal.

Quando Lila esticou o dedo indicador para tocar a campainha, ocorreu-lhe uma outra ideia. Já que o mundo ia mesmo acabar e ela não podia fazer nada para impedir, resolveu então deixar tudo de lado e buscar realizar seu maior sonho: colocar na boca, ao mesmo tempo, quantas balas de gelatina conseguisse. Desde a infância, sob os julgadores olhos familiares Lila esperava pelo momento em que teria liberdade e independência o suficiente para concretizar esse desejo latente.

Tão empolgada e sorridente como quando, aos 12 anos, recebeu uma resposta datilografada a uma carta de 20 metros coberta de I Love yous que enviara ao Jon Bon Jovi, Lila desceu as escadas em alta velocidade, em busca da mais próxima loja de confeitos. Enquanto caminhava, suas pernas moviam-se em uma marcha firme e também atrapalhada, os braços balançavam junto ao corpo como os de uma criança desengonçada.

Quando chegou à loja, viu que um adolescente muito alto, de pele extremamente branca, olhos verdes e bastante acne estava sentado em um pequeno banquinho de madeira, com a cabeça levantada olhando para a Tv que ficava pregada ao alto da parede. Ela imaginara que, ao chegar à rua, veria pessoas desesperadas correndo enroladas em toalhas e cheias de shampoo no cabelo gritando “Salve-se quem pudeeer!”. Mas tudo estava estranhamente calmo.

Como ela achou que o caos estaria instalado na cidade a esse ponto, não levou dinheiro para comprar as balas. Pensou que certamente poderia observar indivíduos saqueando o comércio, colocando fogo na bandeira nacional e comendo bananas em público, o tipo de liberdade social que somente o apocalipse pode proporcionar. O menino, que parecia ser o responsável pela loja de balas estava totalmente entretido assistindo a um documentário dublado sobre vício em cirurgias plásticas. Talvez ele não soubesse que em poucas horas nada mais existiria, mas o mais provável é que ver aquelas mulheres com seios volumosos a ponto de criarem a própria órbita fosse o desejo final daquele rapaz que jamais teria a sorte de perder a virgindade com uma garota totalmente bêbada de família ortodoxa católica.

To be continued...

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sábado, 27 de agosto de 2011

Meio Porco


O moço de nome Mocó, com a cara fechada, carregava meio porco (abatido, obviamente) nas costas. O suíno havia sido cortado horizontalmente com tanta precisão, que cada banda exibia exatamente metade do rabinho, já não mais encaracolado. Um carimbo azul marcava a pele pálida do animal, indicando o nome da instituição responsável pela morte do simpático nariz-de-tomada.

O Mocó caminhou, curvado sob o peso da carcaça até um enorme gancho pendurado em uma barra de ferro que atravessava o cômodo gelado. Prendeu o bicho no gancho pelo tendão da coxa e soltou, fazendo-o deslizar sobre as costas cansadas. Era uma fila inacabável de metades horizontais de porcos cujas patinhas um dia sambaram na lama e logo iriam ferver em uma panela de feijão.

Mas antes de chegar ao feijão há que se deixar de ter forma de quem um dia respirou para virar o que as crianças saboreiam com o nome de carninha. Outros Mocós, com enormes facões separam pele para toucinho, orelha para salgar, lombinho para defumar, e em alguns minutos ninguém mais sabe se aquilo um dia foi porco ou gente.

Em uma comprida esteira rolante da altura de um umbigo humano passam os bifes que caem dentro de um container, daí para serem propriamente embalados, resfriados, congelados, enviados. O chefão dos Mocós, passa de jaleco branco, capacete e botina de plástico, fiscalizando cada corte para ter certeza que todos formam uma perfeita borboleta. Não pode ter osso no lombo, nem lombo no osso, pois o chefe não procura trabalho bem feito, mas fareja desleixes de todos os tamanhos, para condenar invocando poderes frigoríficos.

Como o homem come pouco, come o porco, como porcos, quando alguém raramente não olha, o Mocó enche as calças de borboletas e assim colore o prato dos filhos no jantar. Até que certo dia morre o Mocó, vítima de algum outro espírito suíno munido de grande arma branca, metal afiado com cabo encardido, acostumado com todo aquele vermelho. Quem quer ver o lado de dentro da vida se depara apenas com a morte.

No velório, colegas de trabalho, curiosos e fingintes se impressionaram com o corpo estático: era peça inteira, sem carimbo nem corte horizontal. Um animal que depois de morto, carregaria ainda esse título indeterminadamente, em vez de passar a ser recheio de prato.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Capítulo 2: O Giro Mortal



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Lila foi imediatamente para casa, onde encontrou seu namorado, com quem vivia. Fred era jornalista, aficionado por café e gostava de dizer-se escritor. Lila o incentivava a escrever, mas ele costumava inventar desculpas para não fazê-lo, como o fato de que estava frio demais ou calor demais. Fred acabara de chegar de sua jornada de trabalho na redação de um jornal local.

Lila o encontrou sentado no sofá com os olhos vidrados na televisão, e as mãos furiosamente entrelaçadas a uma xícara de café. No noticiário, mais repórteres confirmavam o fato de que algo terrível estava para acontecer. Muitos até mesmo formulavam hipóteses de como possivelmente aconteceria. Alguns afirmavam que uma catastrófica enchente varreria a humanidade. Outros diziam que gigantescas chamas lamberiam a vida de cada ser humano, animal ou planta. Havia até quem fosse mais ousado e supusesse que alienígenas viriam para dizimar a população terrestre.

- Oi amor. – disse Lila.

Fred ficou calado, ainda com os olhos pregados na tela da TV, mas aparentemente com o pensamento bem mais longe do que isso.

- Amor, você não adivinha o que aconteceu comigo hoje. Eu fui...

Fred interrompeu a garota e balbuciou:

- Temos que fugir.

-Quê? – perguntou Lila.

- Vamos fugir. – Ele levantou do sofá de forma estabanada e rapidamente colocou a caneca em cima da mesa de centro. – levaremos somente o essencial. Alguns enlatados, duas peças de roupa, sapatos resistentes. Você sabe onde eu guardei aquela barraca de camping?

Lila teve certeza de que seu namorado estava maluco. Perguntou:

- Como você sabe que o mundo vai realmente acabar?

- Eu apenas sei. Nunca soube algo tão bem em toda minha vida. Nem mesmo quando tive que aprender a tabuada sob ameaça de que a professora usasse a palmatória.

O desespero do rapaz começou deixar Lila inquieta. Ela sentiu uma brisa e esfregou os braços com as mãos. Percebeu então que não estava usando a jaqueta preta com a qual tinha certeza ter entrado pela porta minutos atrás.

- Você viu eu tirar minha jaqueta? Perguntou a Fred.

- Isso! Não podemos esquecer roupas de frio. Não sabemos onde vamos ter que dormir, nem por quanto tempo.

Lila procurou a maldita jaqueta dentro na bolsa, em cima da mesa, no banheiro, e até mesmo retornou ao carro em busca de alguma pista. Nada. Não estava em lugar nenhum e nem parecia ter um dia estado. A cabeça de Lila começou a doer excessivamente de tanto ela tentar recordar cada passo que dera durante o dia, para lembrar-se de onde havia deixado sua peça de roupa favorita. Mas tudo em sua memória indicava que ela havia entrado em casa com ela, que desapareceu de seu corpo misteriosamente.

O namorado de Lila começou a ficar irritado com o fato de que ela não parecia estar se importando muito com a chegada do apocalipse. Ele começou a franzir a testa e ficar vermelho, gritando:

- Eles estão chegando! Não fique aí parada, eles estão chegando!

Lila não sabia exatamente quem estava chegando e nem de onde. Só esperava que não fossem seus sogros, pois não queria que a mãe de Fred olhasse para ele com aquela cara de pena, ao ver a pilha de louças por lavar na pia da cozinha e a cama desarrumada.

Fred estava totalmente desnorteado e, desorganizado, enfiava alguns objetos inusitados dentro de uma mochila azul. Lila viu que ele arrancou a maçaneta da porta do banheiro e a jogou dentro da mochila, junto com duas cuecas, um narguilê, um cachecol xadrez e cinco pacotes de miojo. Explicou que a maçaneta serviria para abrir a porta que os levaria a outra dimensão, e que o narguilê era somente para fins recreativos.

Lila resolveu que o melhor a fazer naquele momento era tirar os sapatos, pois, além de seus pés estarem muito suados lá dentro, estavam também apertados. Enquanto ela soltava aquele gemido de alívio ao dar liberdade aos dedinhos, Fred terminava de fechar o zíper da bagagem para uma excursão sem volta. O rapaz girou em seu próprio eixo ao vestir o braço em uma das alças da mochila. Aquele movimento foi fatal. Como se conectado a um espremedor elétrico de laranjas, continuou girando cada vez mais rápido e efetivamente, até que desapareceu.

To be continued...

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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Capítulo 1: A Rotina Intrusa


A sucessão de fatos teve início no dia em que todos os jornalistas acordaram com uma incontrolável vontade de noticiar o fim do mundo. Lila caminhava até seu carro depois de um dia de trabalho quando percebeu algo estranho. Ela costumava estacionar o veículo diariamente em um local determinado, uma vaga estreita localizada entre a garagem de uma fábrica de salgadinhos de festa e a garagem de uma casa onde viviam duas senhoras idosas que, cedo na manhã sentavam-se em um banco na varanda para ver o movimento de pessoas e carros passando pela rua. Às vezes Lila pensava que as velhinhas, com suas xícaras de café em mãos, zombavam dos transeuntes apressados e preocupados em chegar pontualmente a algum lugar onde eles não queriam estar.

Lila fazia questão de sair de casa mais cedo do que deveria simplesmente para ter certeza de que outro carro não seria estacionado na vaga que tanto gostava. O local não era perfeito, pois deixava o retrovisor exposto sob um pé de amora, e em temporada, as frutas caiam maduras, explodindo roxidão sobre o vidro. Mas Lila não se importava tanto com aquilo. Poderia ser pior: imagina se fosse uma mangueira, ou um pé de jaca?

Bom, naquele dia, Lila, ao retornar, não encontrou o carro no local esperado. Imediatamente pensou que ele havia sido roubado, e quando estava prestes a se desesperar pensando em toda a burocracia que teria que ser realizada perante a polícia e a companhia de seguros, viu que o automóvel estava simplesmente estacionado do outro lado da rua. Correu para verificar se estava tudo em ordem e olhou em volta para ver se encontrava algum amigo escondido atrás da árvore, assegurando que era tudo uma brincadeira de mau gosto. Quando não viu ninguém, ficou confusa e, em voz alta, soltou a frase: “que merda é essa?”.

Entrou no carro e percebeu que nada parecia ter sido movido. O assento do motorista estava exatamente na mesma posição que ela deixara pela manhã. Nem mesmo o sanduíche de queijo e presunto que ela havia esquecido sobre o banco do passageiro tinha se mexido. Estava quietinho lá, embrulhado em seu plástico filme. E parecia apetitoso, mesmo tendo passado o dia todo ali, provavelmente sob o sol, na ausência do pé de amora. Ah, se aquele sanduíche falasse e tivesse consciência. Naturalmente ele seria fiel a Lila, e a diria quem foi o maluco que moveu o carro, e como ele conseguiu fazer aquilo sem deixar pistas.

Naturalmente, ela tentou esquecer aquele acontecimento e ligou o motor, engatou a marcha, pisou no acelerador e seguiu para casa. Ligou o rádio para descontrair. Um boletim de noticias urgente afirmava que o fim do mundo estava próximo. Ninguém sabia como ou quando seria, nem o por quê do apocalipse, a única coisa de que os locutores tinham certeza é que o mundo iria acabar, e logo.

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domingo, 3 de julho de 2011

Sobre Bullying e Monstros


Após ficar 20 anos em coma, Joaquim acordou somente para perceber que todos os bares agora tinham mesas e cadeiras de plástico. O que aconteceu com toda aquela encantadora e dobrável mobília de metal? Não havia nada a fazer senão lamentar-se. E como se não bastasse, já não existia mais Fanta sabor abacaxi. Porém, a lembrança desse sabor pode ter sido apenas uma alucinação que Joaquim teve durante tantos anos dormindo.

Joaquim alimentara inúmeras teorias evolucionistas e grandes idéias para escrever romances, porém esqueceu-se de tudo no dia em que, ao atravessar a rua fora da faixa de pedestres, foi atingido pelo carrinho de um coletor de papel. Essas coisas não tem freio.

Mas não foi assim que ele entrou em coma. Essa condição foi conseqüência de um ataque nervoso que Joaquim teve ao chegar em casa e ver inúmeros monstros e fantasmas perseguindo seu filho Fernandinho, de sete anos. Os seres imaginários usaram algemas de sex shop para amarrar a criança na cadeira enquanto o torturavam e estupravam. No final, deram um tiro de revolver 38 na cabeça do menino e entraram todos pelo buraco feito pela bala. A perícia revelou que os monstros apareceram porque Fernando era vítima de bullying na escola, onde havia um parquinho com o chão coberto de brita sobre o qual as crianças corriam.

Quando Fernandinho, ainda vivo, acordava durante a madrugada e ia chorar no ouvido do pai por medo de monstros e fantasmas, Joaquim dizia que esses seres viviam somente dentro da cabecinha do menino. Um dia, quando Fernandinho, por distração, foi à aula vestido com a bermuda do uniforme ao contrário, os coleguinhas decidiram que seria justo puni-lo com uma chuva de brita. Uma das pedrinhas atingiu-o na cabeça e, como os monstros viviam apenas dentro da cabeça dele, as criaturas fugiram através do orifício provocado pelo impacto da pedra em seu crânio. Joaquim presenciou todo o terror e as atrocidades cometidas contra seu filho e, não resistindo ao trauma, entrou em coma e assim ficou durante 20 anos.

Quando saiu do hospital, a primeira pessoa que Joaquim procurou foi a mulher, mas decepcionou-se ao descobrir que aquela que ele pensava ser sua esposa, era na verdade uma mariposa. Tão grande que parecia mais um morcego. Dizem que esses animais tem um pó tóxico nas asas. A constante forma como Joaquim fora exposto a tal pó, fez com que ele tivesse muita sede por cerveja barata e desenvolvesse um desvio de septo nasal.

Joaquim estava deprimido, infeliz, solitário. Procurou então uma prostituta cartomante para lhe fazer companhia. Ela tinha pernas enormes. Metros e metros de pernas que faziam o tronco parecer achatado naquele curto vestido vermelho de lurex. Ela tinha cabelo loiro com mechas lilás, gostava de longas caminhadas na praia e seu hobby era cursar uma faculdade particular de comunicação social.

As pessoas acham, erroneamente, que algumas universitárias se prostituem com o intuito de levantar fundos para arcar com os investimentos educacionais. Vendem seu corpinho em busca de tornar possível o sonho intelectual de um dia serem proletariadas cujos mamilos apontam sob terninhos por causa do ar condicionado de algum escritório. Mas o certo é que, ao contrario do que pensam, as garotas de programa tornam-se estudantes para agregar valor aos serviços sexuais. Depois que Sissy passou a se apresentar como “Loira quente universitária”, pôde arrecadar o dobro do que embolsava quando era apenas “Loira quente”. Isso é uma questão óbvia de marketing pessoal.

Durante o programa com Joaquim, ela passou todo o tempo das preliminares dando opiniões sobre filmes do Woody Allen. Depois do coito, ela fumou um cigarro daqueles compridos fininhos com aroma de hortelã e comentou sobre o fato do diretor ter largado a esposa Mia Farrow para se casar com sua filha adotiva sul coreana. Joaquim nunca tinha ouvido falar dessa fofoca e ficou 39% chocado.

Sissy gostou muito do novo cliente e por isso, antes de se vestir e ir embora, ela pegou um baralho de tarô e fez alguns truques sacados de mágica que não estavam incluídos no preço do sexo. Os dois então passaram a se encontrar regularmente. Joaquim adorava observar a forma como Sissy, enquanto pensava em algum enredo de filme, levava a mão à boca, roendo delicadamente pequenas lascas de esmalte vermelho. Ela cuspia os pedacinhos com muita classe, colocando a linguinha para fora. Não há nada mais femininamente sexy e selvagem quanto uma mulher com esmalte descascado e aquela cara de falso tesão.

No próximo encontro, Joaquim contou a Sissy tudo o que acontecera com seu filho anos atrás. Ela lembrou então de sua não tão distante infância, durante a qual tinha recorrentes pesadelos. Ela sonhava com uma jovem muito branca, de cabelos pretos curtos e encaracolados, que usava maquiagem combinando com o brinco comprado em uma feira hippie. Essa assustadora figura jogava a cabeça para trás dando risadas malvadas enquanto enfiava um garfo em uma lata de ervilhas, comendo-as, uma a uma, como se fossem pequeninos brigadeiros verdes.

Os amantes então dividiram segredos, esfregaram os narizes e chamaram um ao outro de “meu amorzinho” com voz de bebê. Esse tipo de coisa que, se o mundo fosse justo, daria cadeia. Eles então cismaram que estavam apaixonados, e como todo mundo que tem essa ideia, Joaquim e Sissy escreveram os planos para o futuro em um guardanapo de bar e jogaram poker valendo favores não-sexuais. Joaquim perdeu e teve que ir ao churrasco de calourada da facu com a garota.

Lá, ele achou muito perigoso conhecer pessoas, porque existia a possibilidade de ele acabar fazendo amigos. Joaquim tinha uma política muito estrita contra amizades, pois acreditava que caso ele se aproximasse de alguém e viesse a desejar o bem a essa pessoa, ele não mais poderia criticá-la tanto quanto gostaria. Costumava dizer que amizade é igual cachorro: ele não gosta, mas respeita quem tem.

O relacionamento começou a desandar no dia em que Sissy estava chorando inconsolavelmente pela morte de seu terapeuta, que tinha 102 anos, era surdo, mudo e milionário. Ao ver o desespero da menina, Joaquim disse, enquanto comia com a mão uma coxa de frango fria de ontem, que com todo o dinheiro gasto em terapia ao longo de anos, ela poderia ter comprado seis novas personalidades saudáveis. Ela achou um absurdo ele dizer isso, e ainda mais, ficou com raiva porque ela estava planejando fazer risoto funghi para o almoço e ele já tinha estragado o apetite com aquele frango velho.

Sendo assim, os dois pombinhos terminaram o romance e ela foi imediatamente para o Caribe passar as férias e esquecer toda a falta de sensibilidade de Joaquim. Lá ela conheceu um brasileiro que disse que morava em um lugar chamado Tirol, na cidade de Belo Horizonte. Ela não sabia onde ficava, mas tinha quase certeza que era um lugar bacana, afinal de contas, o cara estava curtindo uma viagem internacional. No final das contas, o cara era um trabalhador muito honesto que havia pagado pela viagem com o suor de seu salário de caixa de padaria. A partir desse ponto, a vida de Sissy ficou entediante demais para continuar a ser parte importante dessa história.

Ela e Joaquim voltaram a se ver muitos anos depois, quando ele, já velho gagá, participou da despedida de solteiro de um sobrinho em um puteiro de gordas sessentonas. Quando ele viu a mulher com quem tinha vivido momentos maravilhosos de outrora, quase se apaixonou de novo, mesmo ela pesando 178 quilos. Ela ainda tinha cabelos loiros com mechas roxas e fazia uma sensual apresentação na qual ela performava um strip tease enquanto comia 40 hambúrgueres ao som de clássicos dos anos 1990.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Emergência odontológica

Eu aflita na cadeira do dentista. Apavorada por questões existencidentais. A assistente, do canto me olhava com curiosidade, tentando desvendar a minha cara de medo. Eu ignorei a transparência da moça, pois ela parecia saber mais sobre mim do que eu gostaria, apesar de nunca tê-la visto antes. Enquanto isso, o doutor violava ferozmente a minha dolorosa carie, e eu, apesar de todas as outras questões, tentava adivinhar, por brincadeira, se ele era gay ou não.

Eu procurei não olhar diretamente para a moça, mas reparei de relance que ela tinha pele morena e lábios carnudos que, se eu não tivesse outras preocupações, invejaria. Provavelmente ela fitava todos os pacientes daquela forma, e depois quando ia para casa, escrevia sobre eles em um diário ou arquivo Word.